quarta-feira, 14 de outubro de 2009



TERRA MÁTRIA

Minha pátria está morta
eles a sepultaram
no fogo
Vivo em minha mátria
a palavra

poema de Rose Auslander

terça-feira, 14 de abril de 2009

Temporariamente fora do ar

Passei por esse espaço hoje para escrever sobre minha dificuldade em manter o blog junto com a escrita da dissertação. Espero voltar a escrever aqui assim que terminar meu trabalho. Não só voltar a escrever, mas aumentar o número e a qualidade dos textos publicados nesse espaço. Enquanto isso, vou escrevendo o trabalho “científico” que conquistará tantos leitores diante da quantidade enorme de acadêmicos e pessoas que escolhem a academia para se dedicar depois de terminar a graduação. É, realmente quem está nesse mundo da academia na pós-graduação sabe bem o quanto ele não faz parte da “realidade nacional”. Em breve, espero voltar com mais textos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O fato de vir escrever hoje no blog tem um significado importante: vim pedir para que leiam a revista Bravo! de fevereiro. O motivo é simples: escrevi para a seção de críticas das artes plásticas e, como se trata de minha primeira aventura em uma revista de cultura, espero que a publicação do meu texto traga sorte à revista. Abordo uma exposição dos quadros de um artista brasileiro, Guignard, que conhecia pouco até fazer a pauta. Dentre os assuntos que trato no texto, procuro desmistificar a idéia de que sua obra seja ingênua e facilmente classificada de modernista e, que, pelo contrário, possui uma complexidade até então pouco tratada.
Agora que começo a escrever sobre cultura em geral, colaboro também com uma revista online chamada Paradoxo.
Até a próxima, espero que com mais textos

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Novamente estava à beira da praia, lugar em que passou boa parte de sua vida. Tudo, ao mesmo tempo em que lhe parecia familiar, causava-lhe estranheza. O mar estava mais calmo, a areia menos quente, o vento mais brando. Não entendia muito bem o porquê as coisas que lhe pareciam tão naturais antes, agora reparava muito mais detalhadamente. As ondas que tanto o incomodavam e que quase foram motivo de afogamento de muitos conhecidos seus, pela sua intensidade e perigo, agora estavam calmas, e eram comparadas a uma lagoa. A bandeira, que estava sempre presente avisando do perigo das marés, nem lá estava. As pedras, que costeavam as trilhas, programa que costumava encarar como uma grande aventura, pareciam menores e sem nenhum risco. Lembrava-se perfeitamente de quando reunia os parentes para ir pelas pedras e chegar nas trilhas, tarefa feita com todo cuidado em razão da dificuldade, e a impressão era de que qualquer descuido seria fatal. No mesmo caminho que fazia, não reconhecia tal perigo nem de longe. Olhando ao redor da praia, relembrou que, perto das dunas, costumava a participar de batalhas memoráveis nos jogos freqüentes de futebol. Esporte que, aos poucos, foi largando, mas que era o seu preferido. Velhos tempos em que vestia a camisa 10 e marcava um gol por jogo. Essas memórias causaram certo mal-estar. Nem parecia a mesma praia. Nem o quiosque do Seu Zé, lugar em seus pais costumavam freqüentar durante o fim da tarde para tomar uma cerveja, estava lá. Deixou a praia crente de que o lugar, realmente, não era o mesmo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008



Mais um dia em São Paulo e passada a tempestade, a bonança ainda parece estar longe. Os mercados estão longe de deixar a matriz tupiniquim segura e Lula continua dando sermão ao vento. A catástrofe está anunciada nos jornais, revistas, e em todos os lugares possíveis e imagináveis. Revistas travam batalhas, como a Veja, que resolveu publicar: nós salvamos vocês. Exaltando o que eles chamam de nossa salvação: os EUA. A Carta Capital, que não ia deixar barato, retruca com uma capa: eles não salvam ninguém. Crítica clara aos EUA.
A parte da troca de farpas por ambas as revistas, o alarde com relação a crise espalha-se pelos meios de comunicação e apavora o tão seguro mundo dos investidores. Meus amigos que investiram em ações já nem querem mais ver como anda o dinheiro. Realmente, tal prenúncio equipara-se quase ao apocalipse, seguido pela forma pela qual infesta as manchetes dos principais jornais. Já li muito sobre o fato dos Estados Unidos não terem adversário. Pensa-se muito e já se pensou muito sobre diferentes formas de acabar com o capitalismo. Sempre fui muito crítico com relação ao capitalismo e continuo sendo. Espero um dia não ter que ver a cena a qual vi e que o capitalismo é pródigo em produzir: um senhor com uma placa pendurada no pescoço escrita: “pai de família não tem o que comer, aonde morar, em que trabalhar”. Circulava entre os caros, com a mesma desolação que o capitalismo deveria estar ao produzir a miséria com a qual convivemos diariamente.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Saudades de um certo all-star preto.


Ele estava ali parado em frente a uma vitrine, vidrado em um all-star preto. As pessoas que passavam já estranhavam, tamanha era a empolgação. Essa que durou o tempo necessário até virar tristeza. Não, não era o mesmo all-star preto. Aquele produto novo, parado entre em um Nike air e um Puma. Realizou o quão único que era o que sentia saudades. Não, não era o mesmo all-star preto. O dela tinha sua expressão, era sincero como sua fala, transparente como seu olhar. Ficou como que paralisado, com um ar de tristeza que transparecia. Ficava ali, admirando aquele all-star que lembrava ela. Não, não era o mesmo all-star preto. Era simbolismo puro, sua lembrança mais sofrida. A distância dele até o tênis não era nada comprada ao lugar no qual realmente queria estar. Um funcionário viu a demora e perguntou: “posso ajudar?”. Não, não era o mesmo all-star preto. Ele, sem poder esconder a tristeza, murmurou negativamente. Realmente ninguém ali poderia ajudá-lo. Ele, sem saber o que fazer para livrar-se da lembrança, caminha pelo shopping, com olhar perdido e um claro ar de tristeza. Queria correr mais não conseguia, estava atordoado. Como que paralisado pelas recordações e a representação que um simples tênis pode conter. Era mais do que estilo dela, era uma forma de expressão que parece surgir espontânea, livre em seu sorriso. Desde que a viu, não saiu de sua cabeça. Não, não era o mesmo all-star preto. Queria sair dali o quanto antes, mas aquela visão era como um imã. Voltou para olhar o mesmo tênis. Desde que a conheceu, não sai da sua cabeça. Ela combinava com aquele tênis. Fazia parte do seu estilo. O dela, embora parecesse comum, não era. Era único. Não, não era o mesmo all-star preto. Como uma lembrança que o martelava, tentava desviar o olhar em vão. A imagem do tênis era como seu elo de ligação com ela. Decide entrar na loja, mas desiste logo de seu intento. Não, não era o mesmo all-star preto. Quando consegue, como de ímpeto, se livrar daquela visão, caminha sem se livrar da memória. Vai pra casa pensando nela e com a certeza de que quer ver o verdadeiro all-star preto, e ela.

sábado, 23 de agosto de 2008






“A vida é um sonho”. Essa era a frase que ecoava no novo filme sobre o poeta Wally Salomão, realizado pelo cineasta Carlos Nader. Vencedor do festival “É tudo verdade”, o filme problematiza a fronteira entre realidade e encenação através da poesia. Expõe a insatisfação do cineasta em sua busca pelo “real”. O poeta encena, e nesse sentido ele faz o filme. Através disso, explora os limites entre as representações, criando seu personagem e refletindo sobre as relações sociais.
Segundo o diretor, o objetivo do filme era mostrar Wally em seu cotidiano, sem ele encarnar o personagem. Suas tentativas foram mostradas no filme. A cada vez que ele ligava a câmera, automaticamente Salomão encenava. Porque essa obsessão do filme em mostrar o outro “como ele é?”, quando sabemos que uma narrativa é uma representação? Faria isso parte dele, condicionado o olhar do diretor?
Muitos filmes brasileiros atuais exploram o limite entre realidade e ficção. Dentre eles destaco dois: Jogo de cena, de Coutinho, e Santiago, de Moreira Sales. No primeiro é clara a proposta de indagar a narrativa enquanto invenção do sujeito. O limite entre ficção e realidade é um dos temas centrais, e o fato de ter sido todo feito em um palco de teatro é emblemático. O filme de Nader e de Coutinho se aproximam: brincam com a relação entre encenação e máscaras sociais, questionando a definição da narrativa. No filme de Salles, a idéia é semelhante. O caráter intimista e tom confessional servem para o cineasta contar a história de umas filmagens feitas com seu antigo mordomo, chamado Santiago. A memória e a narrativa cinematográfica são postas em questão. Como diria Wally: “A memória é uma ilha de edição”.